Amazônia perdeu madeira equivalente a quase 3 vezes a cidade de SP em um ano

Amazônia perdeu madeira equivalente a quase 3 vezes a cidade de SP em um ano

A Amazônia perdeu, em 12 meses, 4,64 mil km² de madeira, o equivalente a quase três vezes o tamanho da cidade de São Paulo, a maior capital do Brasil. Os dados publicados, neste domingo (5), são de um levantamento inédito feito pela Rede Simex, formada pelas organizações ambientais Imazon, Idesam, Imaflora e ICV, e se somam a outros alertas feitos no último ano sobre o bioma.

Por meio de imagens de satélites, os pesquisadores monitoraram a exploração madeireira na Amazônia no período entre julho de 2020 a julho de 2021. Eles também pesquisaram a legalidade dessa madeira, mas não conseguiram ter acesso aos dados em 7 dos 9 estados que compõe a Amazônia Legal.

Apesar disso, eles identificaram que 6% do total explorado ocorreu em unidades de conservação e 5% em terras indígenas, locais onda a atividade é ilegal.

Além do alerta publicado neste domingo, o G1 reuniu abaixo outros 7 alertas já feitos no último ano sobre a Amazônia:

  1. Exploração madeireira: área é 3 vezes maior que a cidade de São Paulo
  2. Emissões: pela primeira vez na História, floresta passou a emitir mais CO2 do que absorver, acelerando o aquecimento global
  3. Fogo, seca e aumento da temperatura: área maior que a da Inglaterra é queimada por ano na Amazônia
  4. Perda de recursos hídricos e desmatamento: fenômeno dos “rios voadores” começam a perder força
  5. Perda de biodiversidade: pelo menos 95% das espécies da Amazônia foram afetadas pelas queimadas nos últimos 20 anos
  6. Garimpo: 93% de todo o garimpo realizado no Brasil está concentrado na Amazônia
  7. Contaminação do solo, rios e pessoas: mercúrio contaminou 6 em cada 10 indígenas munduruku e todas as espécies de peixes em rios da terra indígena
  8. Mineração: desmatamento pela atividade já bateu recorde em 2021 no bioma
Imagem aérea do Rio Juruá, na Amazônia. Biodiversidade brasileira precisa receber ao menos o dobro de investimentos para manter preservação — Foto: Bruno Kelly/Reuters

Imagem aérea do Rio Juruá, na Amazônia. Biodiversidade brasileira precisa receber ao menos o dobro de investimentos para manter preservação — Foto: Bruno Kelly/Reuters

A Amazônia abriga mais da metade da área de todas as florestas tropicais remanescentes do planeta, além de ser berço de 10% da biodiversidade do mundo. Ela também é importante na regulação do clima global, retirando e armazenando parte do gás carbônico da atmosfera – gás causador do efeito estufa.

É o maior bioma do país e corresponde a 59% do território brasileiro. O termo Amazônia Legal é usado para se referir a área de 8 estados do Norte e parte do Centro-Oeste: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins e parte do Maranhão.

1- Exploração madeireira

Segundo o levantamento da Rede Simex, mais da metade dos 4,64 mil km² de madeira explorados na Amazônia entre julho de 2020 e julho de 2021 ocorreu no Mato Grosso (50,8%), com 2,36 mil km² de madeira explorada. A segunda maior área explorada foi no Amazonas (15,3%), e a terceira, em Rondônia (15%).

Em relação à categoria fundiária, 78% da madeira explorada ocorreu em imóveis rurais cadastrados, onde a exploração madeireira ocorreu em 3,62 mil km².

Nas áreas protegidas, onde a atividade madeireira pode ser autorizada dependendo de sua categoria, a exploração da madeira somou mais de 5,2 mil km², o que corresponde a 11% do total mapeado.

Outros 6% da madeira explorada na Amazônia durante o período ocorreram dentro de unidades de conservação, uma área equivalente a 2,8 mil km². A unidade que teve a maior área explorada foi o Parna dos Campos Amazônicos (AM), unidade de conservação de proteção integral, onde a exploração da madeira é proibida.

“A alta ocorrência de exploração madeireira no Parna dos Campos Amazônicos e na TI Tenharim Marmelos chama atenção pela sua localização, na tríplice divisa entre Amazonas, Mato Grosso e Rondônia. Uma região que vem sofrendo grande pressão por desmatamento nos últimos anos e, como esses dados mostram, também por exploração madeireira”, afirma Vinicius Silgueiro, coordenador de inteligência territorial do ICV.

Vale destacar que os pesquisadores não puderam diferenciar a exploração madeireira autorizada da não autorizada para toda a região amazônica.

“A falta de acesso aos dados sobre as autorizações para o manejo florestal impede a checagem da legalidade dessa exploração na maioria dos estados — só é possível em Mato Grosso e no Pará”, diz em nota a Rede Simex.

A retirada da madeira representa apenas uma das várias formas de desmatamento da Amazônia.

2-Emissões de gases do efeito estufa

Outro alerta publicado este ano mostra que o desmatamento e as mudanças climáticas estão alterando a capacidade da floresta amazônica de absorver carbono.

Segundo uma pesquisa brasileira publicada em julho na revista científica “Nature”: desde 2010, apenas 18% das emissões por queimada estão sendo absorvidas pelo bioma. Com isso, Amazônia deixou de retirar da atmosfera 0,19 bilhões de toneladas de CO2 por ano.

A pesquisa também revelou que as emissões de CO2 foram dez vezes maiores nas áreas da Amazônia nos estados do Pará e Mato Grosso, onde a taxa média de desmatamento é superior a 30%. Com isso, segundo Gatti, a área se tornou uma fonte significativa de carbono.

De acordo com a revista e com os envolvidos no estudo, essa é a primeira vez que um estudo aponta a diminuição no potencial de absorção da floresta.

Apesar dos dados alarmantes, o desmatamento tem crescido na Amazônia nos últimos anos. O primeiro semestre de 2021, por exemplo, teve o maior número de alertas de desmatamento do Inpe em seis anos.

3- Fogo, seca e aumento da temperatura

Um levantamento do MapBiomas publicado em julho mostra que uma área maior que a da Inglaterra é queimada todos os anos no Brasil desde 1985. Isso equivale a quase 151 mil km² consumidos anualmente pelo fogo no período, ou cerca de 16 mil campos de futebol por ano somente na Amazônia.

Um estudo da Nature de julho também mostra que as queimadas estão deixando a deixam a floresta amazônica, que tem característica úmida, mais seca e mais quente. A publicação dá como exemplo os meses da “temporada do fogo”, que vai de agosto a outubro: nesse período, a temperatura subiu 2°C e a chuva teve queda de 35% no volume.

Além disso, mais secas, as árvores ficam mais inflamáveis, precisando de menos intervenção para incendiar.

4- Perda de recursos hídricos

A Amazônia é um dos maiores reservatórios de água doce do mundo, essencial para a vida na Terra: o bioma se estende ao longo da Bacia Amazônica, a maior bacia hidrográfica do mundo, com cerca de 6 milhões de km² e mais de 1 mil afluentes.

Porém, o desmatamento e o fogo estão comprometendo a água na região. O Rio Negro, por exemplo, perdeu 22% da sua superfície desde os anos 90, segundo o MapBiomas.

O desmatamento também já compromete o fenômeno conhecido como “rios voadores”, uma massa de ar úmido que viaja da Amazônia para todo o Brasil, responsável pela formação das chuvas em todo o país e por amenizar a sensação de calor. Porém, com a quantidade de floresta devastada nos últimos anos, pesquisadores alertam que este fenômeno vem perdendo força.

Os "rios voadores" estão acelerando devido ao aquecimento global e causando chuvas mais intensas — Foto: Gerard Moss

Os “rios voadores” estão acelerando devido ao aquecimento global e causando chuvas mais intensas — Foto: Gerard Moss

“Os rios voadores começam a perder quantidade de água e, consequentemente, afetam as chuvas. Como parte das mudanças climáticas envolvem o desmatamento, é um efeito cascata. Sem árvore para ajudar na transpiração, menos água na atmosfera. Menos chuva, mais seca”, explicou o meteorologista e mestre em Clima e Ambiente pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Bruno Takeshi Tanaka Portela, em uma reportagem do G1 em 2020.

4- Perda de biodiversidade

Foto mostra tamanduá morto depois de incêndio na Amazônia perto de Mirante do Norte, Rondônia, no dia 20 de agosto. — Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Foto mostra tamanduá morto depois de incêndio na Amazônia perto de Mirante do Norte, Rondônia, no dia 20 de agosto. — Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Um estudo internacional com a participação de cientistas brasileiros publicado em 1º de setembro na revista científica “Nature” revela que os incêndios que atingiram a Amazônia desde 2001 podem ter afetado 95,5% das espécies de plantas e animais vertebrados conhecidas em todo o bioma. Além disso, a cada novos 10 mil km² de área queimada, até 40 espécies a mais podem ser prejudicadas.

A publicação destacou que o fogo neste período afetou 53 das 55 espécies de mamíferos ameaçadas de extinção; 5 das 9 espécies de répteis ameaçadas de extinção; 95 das 107 espécies de anfíbios ameaçadas de extinção; e 236 das 264 espécies de plantas ameaçadas de extinção.

“A biodiversidade funciona como um cinto de segurança da Amazônia. Ou seja, quanto mais biodiversa, maior a capacidade da floresta de se adaptar a crises e resistir aos distúrbios climáticos. Porém, conforme vamos retirando diversidade das suas espécies, vamos enfraquecendo a resiliência da Amazônia”, explica um dos autores do estudo, Paulo Brando, pesquisador do Ipam.

4- Garimpo

A Amazônia concentra 93,7% dos garimpos no Brasil, segundo o MapBiomas, que monitora as transformações na cobertura e no uso da terra no país. A expansão da atividade ilegal na região tem se dado principalmente em território indígena e em unidades de conservação.

De acordo com o órgão, entre 2010 e 2020, a área ocupada pelo garimpo dentro de terras destinadas aos índios cresceu 495%. Os territórios mais afetados são as terras indígenas Kayapó (7.602 ha) e Munduruku (1.592 ha), no Pará, e os Yanomami (414 ha), no Amazonas e Roraima.

No que diz respeito às unidades de conservação, quase metade da área garimpada no Brasil em 2020 está nessas unidades de preservação (40,7%). As mais afetadas são: a Área de Proteção Ambiental do Tapajós (34.740 ha), a Flona do Amaná (4.150 ha) e o Parna do Rio Novo (1.752 ha).

O garimpo é a extração de minérios predatória e ilegal, geralmente relacionada ao ouro e não à indústria.

5- Contaminação por metais pesados

Por falar nas terras indígenas do Pará, uma pesquisa da Fiocruz e a organização ambiental WWF-Brasi de 2020 mostrou que 6 em cada 10 indígenas das aldeias da Terra Indígena Sawré Muybu, do povo Munduruku, estão contaminados com níveis acima do limite considerado seguro por agências internacionais.

Entre as crianças menores de cinco anos, a contaminação por mercúrio já deixou sequelas em 16% delas, que apresentaram problemas de coordenação motora e na fala. Um bebê de 11 meses apresentou níveis de mercúrio três vezes acima do tolerável.

A pesquisa constatou a presença de mercúrio em todos os 88 peixes coletados, de cinco espécies. Por isso, os cientistas estimaram que os indígenas estão ingerindo uma quantidade de mercúrio até 18 vezes maior que o limite seguro. E que também coloca em risco pessoas que ficam a quilômetros de distância.

O coordenador da equipe de zona costeira e mineração da MapBiomar, César Diniz, também explicou ao G1 em agosto que a contaminação por metais pesados gerado pelo garimpo vai além da Amazônia e pode chegar em quem nem mesmo vive perto da região.

“O garimpo amazônico gera uma grande quantidade de sedimento, que é enviado aos rio. E, em geral, a forma de fazer a recuperação do ouro é pelo uso de metilmercúrio, que é um absolutamente nocivo para os garimpeiros e também para a fauna, que está associada ao curso hídrico. Ou seja, o garimpo causa um problema para quem garimpa, para quem vive dos rios e até para quem nem próximo do garimpo esteve, porque a contaminação do mercúrio pode afetar os peixes vendido em mercados”, explicou Diniz.

A intoxicação por mercúrio pode provocar problemas respiratórios, renais e atacar principalmente o sistema nervoso

6- Mineração

Um estudo do MapBiomaas divulgado em agosto revelou que três de cada quatro hectares minerados no Brasil estão na Amazônia, o equivalente a 72,5% da área minerada em 2020.

Já um levantamento do G1 com dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostrou que o desmatamento por mineração na Amazônia entre janeiro e 13 de agosto de 2021 foi de 102,42 km² de floresta, o equivalente a mais de 10,2 mil campos de futebol. O número é o recorde registrado pelo Inpe para o período e a área já supera o registrado nos 12 meses de 2020.

A mineração está relacionada à atividade industrial e a produção de ferro e alumínio, podendo ser legal (quando tem autorização da Agencia Nacional de Mineração) ou ilegal.

Fonte: https://noticiageral.com – com informações de G1

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *