Artigo que sugere efeitos adversos do uso de máscaras não tem relação com Stanford?

Artigo que sugere efeitos adversos do uso de máscaras não tem relação com Stanford?

Circula nas redes sociais que um estudo supostamente feito por pesquisador da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, “comprovou” que as máscaras de proteção são ineficientes contra Covid-19 e causam efeitos colaterais. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

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“Estudo (…) realizado pela Universidade de Stanford ”

Trecho de publicação que até o dia 30 de abril de 2021, às 11h43, havia sido compartilhado por 19 pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O artigo usado como “base” para o conteúdo, “Máscaras na era da Covid-19: uma hipótese de saúde” (“Facemasks in the COVID-19 era: A health hypothesis”, em inglês), não tem relação alguma com a Universidade Stanford. A direção da instituição se manifestou no Twitter, e em seu site, negando qualquer relação com o texto publicado ou com seu ator. 

O texto foi assinado por Baruch Vainshelboim, que indica como endereço profissional o Departamento de Cardiologia do Sistema de Saúde para Veteranos de Guerra de Palo Alto, instituição vinculada a Stanford. Contudo, segundo a universidade, Vainshelboim passou apenas um ano como professor visitante na instituição, em 2016. Desde então, não tem mais qualquer vínculo.

O artigo de Vainshelboim, como o próprio título sugere, é uma hipótese. Não se trata, portanto, de um experimento, com voluntários e observações próprias, e sim da construção de premissas a partir de outras pesquisas realizadas sobre o assunto.


“Publicado no site do governo NCBI (National Center for Biotechnological Information)”

Trecho de publicação que até o dia 30 de abril de 2021, às 11h43, havia sido compartilhado por 19 pessoas

VERDADEIRO, MAS

A informação analisada pela Lupa está fora de contexto. O artigo pode ser encontrado no site do National Center for Biotechnological Information, que é um repositório de pesquisas e informações científicas. A publicação, no entanto, é da revista Medical Hypotheses. 

Como pode ser conferido nesta descrição da sua proposta, ela busca incentivar a diversidade do debate científico, abrindo espaço para ideias, a princípio consideradas “radicais”, e que possam ter dificuldade na publicação em periódicos mais “tradicionais”. A sua pontuação na ScienceDirect em relação à citação de suas publicações em trabalhos científicos é baixa (2,2). De acordo com a plataforma, a avaliação é feita com base na contabilização de citações feitas nos últimos 4 anos de artigos revisados por pares. 

A revista já protagonizou alguns episódios controversos, como foi apontado pelo site Snopes. Em 2009, foi publicado no veículo um artigo que negava a ocorrência da epidemia de AIDS. O fato causou polêmica entre os acadêmicos e, após uma revisão dos editores da revista, o texto foi retirado do ar. A Medical Hypotheses também já divulgou uma pesquisa que tentava relacionar o uso de salto-alto à esquizofrenia


“De acordo com o conhecimento atual, o vírus SARS-CoV-2 tem um diâmetro de 60 nm a 140 nm [nanómetros (bilionésimo de um metro)] [16], [17], enquanto o diâmetro do fio das máscaras faciais médicas e não médicas varia de 55 µm a 440 µm [micrómetros (um milionésimo de metro), que é mais de 1000 vezes maior [25]. Devido à diferença de tamanhos entre o diâmetro do SARS-CoV-2 e o diâmetro do fio da máscara facial (o vírus é 1000 vezes menor), o SARS-CoV-2 pode facilmente passar por qualquer máscara (…) As evidências científicas existentes desafiam a segurança e eficácia do uso da máscara como intervenção preventiva para COVID-19. Os dados sugerem que as máscaras faciais médicas e não médicas são ineficazes para bloquear a transmissão humano a humano de doenças infecciosas e virais, como SARS-CoV-2 e COVID-19 (…)”

Trecho de publicação que até o dia 30 de abril de 2021, às 11h43, havia sido compartilhado por 19 pessoas

FALSO

O diâmetro do SARS-Cov-2, vírus que causa a Covid-19, de fato tem sido estimado em 60 nm a 140 nm, como pode ser verificado nesta pesquisa publicada na revista Microbial Pathogenesis. No entanto, isso não significa que ele tenha fácil penetrabilidade nos materiais das máscaras faciais. Um estudo, publicado no Journal of General Internal Medicine, sugere que além de auxiliar na desaceleração da transmissão do vírus, o uso de máscaras pode ter contribuído para o aumento de casos assintomáticos. Os cientistas explicam que, as máscaras – a depender de seu material – barram a maior parte dos vírus com que as pessoas têm contato, porém, uma pequena parte pode vencer a barreira. 

Por causa desse processo de “filtragem”, o corpo tem contato com uma carga viral menor e ao se infectar, tende a ter a doença assintomática ou com sintomas leves. A pesquisa diz que foi observado que nos locais em que o uso de máscaras faciais foi praticado amplamente, a proporção de casos assintomáticos era de 15% antes da adoção da política. Após, cresceu para algo em torno de 40 a 45%.


“O uso de máscaras tem demonstrado ter efeitos fisiológicos e psicológicos adversos substanciais. Estes incluem hipóxia, hipercapnia, falta de ar, aumento da acidez e toxicidade, ativação do medo e resposta ao stress, aumento das hormonas do stress, imunossupressão, fadiga, dores de cabeça, declínio no desempenho cognitivo, predisposição para doenças virais e infecciosas, stress crónico, ansiedade e depressão. As consequências de longo prazo do uso de máscara podem causar deterioração da saúde, desenvolvimento e progressão de doenças crónicas e morte prematura.”

Trecho de publicação que até o dia 30 de abril de 2021, às 11h43, havia sido compartilhado por 19 pessoas

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há evidências que comprovem que ocorram alterações substantivas na redução da circulação de oxigênio ou aumento de gás carbônico no sangue. Uma pesquisa publicada na ATS Journals, plataforma que reúne trabalhos de três revistas científicas especializadas em questões relativas ao sistema respiratório, demonstra que não há alterações relevantes nas trocas de gás, tampouco nas respostas fisiológicas do organismo, quando se usa máscaras cirúrgicas. 

Em entrevista à Lupa, Antonio Egidio Nardi, coordenador do Laboratório de Pânico e Respiração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que não há nenhum estudo, revisado por pares e publicado em veículos de grande credibilidade, que relacione a ocorrência de crises de ansiedade, pânico, estresse ou qualquer outro quadro psicológico ao uso de máscaras. Ele pondera que há pesquisas que evidenciam que “pacientes com transtorno de pânico ou ataques de pânico têm mais chance de ter um ataque de pânico em altas concentrações de gás carbônico (CO2), por exemplo, 35% de CO2”. Porém, faz ressalva de que isso não acontece com pessoas sem transtorno de pânico e explica que a concentração de gás carbônico de 35% “não é obtida com nenhuma máscara, mesmo em uso por muitas horas”.

Na mesma direção, Rose Gurski, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que os estudos sobre os efeitos psicológicos e neurológicos do uso de máscaras ainda estão em desenvolvimento. No entanto, ela destaca que não há evidências que relacionem o uso de máscaras com os quadros citados na publicação. Ela relata que foi observado um aumento nos percentuais de transtornos de ansiedade durante a pandemia.  “Uma pesquisa feita pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) nos meses de maio, junho e julho deste ano mostrou que 80% da população brasileira tornou-se mais ansiosa na pandemia do novo coronavírus”, diz. “Entretanto, isso não é em função do uso de máscaras”, destaca. 

Nardi reforça a explicação e diz que há estudos publicados também fora do Brasil que comprovam essa tese. “Estudos publicados no JAMA e em outras revistas demonstram que ocorreu um claro aumento de sintomas de ansiedade, hipocondria e depressão associado ao medo de ter a doença [Covid-19], ao confinamento, diminuição da vida social e aos problemas econômicos, como por exemplo o desemprego. Nada disso tem relação com o uso de máscaras”, diz. 

Publicações com conteúdo semelhante já foram desmentidas pelo Estadão VerificaAos Fatos e AFP. Fora do Brasil, o USA TodayAPFact CheckFull Fact e PolitiFact também verificaram conteúdos sobre o mesmo assunto. 

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌Facebook‌.

Fonte: https://noticiageral.com – com informações de  Lupa

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