Boatos de hospitais vazios e equipamentos abandonados voltam a circular com piora da pandemia

Boatos de hospitais vazios e equipamentos abandonados voltam a circular com piora da pandemia

Com a piora no número de casos e óbitos por Covid-19, um tipo de desinformação que circulou muito no início da pandemia do novo coronavírus no Brasil ― a de hospitais vazios e equipamentos médicos abandonados ―, voltou a ser compartilhado nas redes sociais. Alguns destes registros são usados para atacar governadores, a exemplo de São Paulo e Ceará, devido às medidas emergenciais adotadas para inibir o avanço do Sars-CoV-2.

O mecanismo de desinformação é o mesmo. Com seus smartphones, pessoas registram hospitais que supostamente estão vazios, para afirmar que a superlotação nas UTIs seria uma farsa. Outras vezes, mostram depósitos com equipamentos de proteção individual (EPIs) para afirmar que os governos locais “abandonaram” o material. Algumas peças inclusive usam registros antigos, que já foram desmentidos, com o intuito de espalhar o boato.

No início deste mês, circulou pelas redes sociais um vídeo com imagens da entrada do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, sem circulação de pessoas. Por diversas vezes ao longo do registro, o narrador sugere que a superlotação, em decorrência da Covid-19, seria uma farsa. “Vou passar aqui para o outro lado, na emergência. Me diz uma coisa, se tu tem um alarde, se tu tem um problema sério de saúde, as pessoas que têm seus entes hospitalizados não estariam aqui na rua, não estariam aqui olhando para os seus mortos, chorando, na frente? Gente, olha a emergência, não tem ninguém.”

Em 3 de março, data em que o vídeo começou a ser compartilhado, um boletim divulgado pelo Moinhos mostrou que, no total, 223 pacientes estavam internados com Covid-19. A ocupação dos leitos de UTI passava de 100%, conforme a assessoria de imprensa do hospital. Sobre as imagens, o hospital informou que familiares são orientados a permanecerem em casa, “uma vez que as visitas são vedadas nestes casos”. Por isso, as imagens da entrada do Moinhos passam uma sensação de normalidade, o que não significa que não haja pessoas internadas com Covid-19 do lado de dentro.

No Ceará, um outro vídeo circulou mostrando imagens de profissionais da saúde num ambiente hospitalar com a legenda “Teatro de Covid-19”. O narrador da gravação sugere que a situação mostrada no Ceará era uma farsa, uma vez que há uma encenação diante de várias câmeras. Tratava-se, na verdade, de um vídeo promocional gravado pelo Centro Médico Shamir, um hospital localizado em Israel. A peça de desinformação era acompanhada de um discurso do governador do Ceará, Camilo Santana (PT), sobre medidas de enfrentamento à pandemia.

Pelo WhatsApp, leitores da Lupa solicitaram para averiguar um vídeo que mostrava imagens de um hospital vazio em São Paulo. O registro é antigo, de 4 de junho de 2020, e foi feito durante visita de deputados estaduais ao Hospital de Campanha do Anhembi, na capital paulista. A informação de que a unidade estava vazia era falsa ― naquela data, contava com 407 pacientes internados, segundo a edição 70 do Boletim Diário Covid-19 da prefeitura de São Paulo. A gravação mostrava uma ala ainda desocupada do Anhembi. A capacidade total da unidade era de 1,8 mil leitos, mas, segundo a secretaria de Saúde, os espaços só seriam ocupados e ativados se houvesse demanda.

A tática de filmar hospitais vazios foi estimulada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em junho de 2020, ao pedir aos seus seguidores nas redes sociais que filmassem o interior de hospitais públicos e de campanha para averiguar se os leitos de emergência estavam ocupados.

Imagens de depósitos com EPIs supostamente abandonados também voltaram a ser compartilhadas. No início de março deste ano, circulou nas redes sociais um vídeo que mostrava diversos materiais hospitalares em um depósito na cidade de Campo Grande (MS). Segundo a narração, o material estava todo “abandonado”, enquanto havia diversas pessoas na cidade buscando por um leito de UTI. Ao contrário do que diz o registro, a Secretaria de Saúde de Mato Grosso do Sul explicou que as camas hospitalares que aparecem no vídeo foram usadas nos hospitais de campanha em Campo Grande e Ponta Porã, desativados no segundo semestre do ano passado. E que, devido a um processo judicial envolvendo o pagamento dos equipamentos, o governo estadual ainda não pôde decidir o destino deles.

A pasta informa que os equipamentos de proteção individual (EPIs) comprados pelo estado ou doados por empresas estão armazenados no Centro de Convenções de Campo Grande, local onde foi feito o registro que circula nas redes sociais. O material é destinado “à medida do necessário, para as demandas de hospitais e outras unidades de saúde, tanto da Capital quanto do interior”.

Em São Paulo, uma peça de desinformação usou a notícia de um furto de respiradores pulmonares para afirmar que o governo estadual teria abandonado os equipamentos em um terreno baldio. Na verdade, criminosos roubaram nove caixas de respiradores pulmonares que deveriam ser entregues ao Hospital Santa Virgínia, na capital paulista. O material foi encontrado pelos policiais militares após serem abandonados pelos bandidos.

Pelo WhatsApp, também voltou a circular um vídeo do deputado estadual Ulysses Moraes (PSL-MT) denunciando a existência de monitores e respiradores guardados no Ginásio Aecim Tocantins, em Cuiabá (MT). O registro é acompanhado com a seguinte legenda: “Bolsonaro manda respiradores e EPIs, mas governadores estaduais e prefeitos abandonam o material em galpões”.

O vídeo é de junho de 2020. Na ocasião, a secretaria de Saúde do Mato Grosso explicou que o ginásio serve para armazenar os materiais hospitalares ― ou seja, não estão abandonados. Os equipamentos são encaminhados para as unidades de saúde à medida em que os leitos ficam prontos, atendendo as unidades hospitalares de acordo com a demanda. Lupa/Editado por: Marcela Duarte

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