‘Caneta contra a obesidade’: substância reduz 15% do peso, mas não dá para aplicar sem ir ao médico

‘Caneta contra a obesidade’: substância reduz 15% do peso, mas não dá para aplicar sem ir ao médico

Um medicamento desenvolvido inicialmente para controlar a diabetes tipo 2 se tornou uma “grande promessa” — palavras de endocrinologistas entrevistados pelo g1 — para o tratamento da obesidade e para redução de peso. A semaglutida é uma substância que foi aprovada em junho nos Estados Unidos, mas, no Brasil, é usada em modo offlabel (com o aval médico, mas fora da indicação prevista em bula).

Ela é aplicada com a ajuda de uma “caneta”, aplicador usado também para injetar outros tipos de medicamentos, incluindo a liraglutida — remédio da mesma família e também usado contra obesidade (leia mais abaixo).

Caneta de semaglutida — Foto: g1

De acordo com Alexandre Hohl, presidente do departamento de endocrinologia feminina, andrologia e transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a “maior pandemia do planeta está relacionada com o peso”.

“Antes da pandemia de Covid-19, a gente já tinha 2,4 bilhões de pessoas com sobrepeso ou obesidade. Então, esse é um número avassalador. Acabaram de sair os números de diabetes entre 2019 e 2021: aumentou em 30% no mundo”, afirma.

1. O que é a substância?

A semaglutida é um análogo ao GLP-1, hormônio que temos no intestino: toda vez que uma pessoa se alimenta, ele sinaliza para o cérebro que é hora de reduzir a fome, retardar o esvaziamento do estômago e aumentar a produção de insulina, que promove a absorção da glicose nas células.

“O nosso hormônio dura 10 minutos, já a semaglutida dura uma semana. Aquela sensação de ‘comi e perdi a minha fome’ é dada pelo GLP-1 e a semaglutida é um medicamento que imita essa ação. O paciente tem a sensação de que está sem fome. E, se ele come, para de comer porque o estômago enche rápido”, explica João Eduardo Salles, endocrinologista e coordenador da Disciplina de Endocrinologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

2. Como ela é aplicada?

A dose para o tratamento de obesidade é de 2,4 mg por semana, segundo as evidências científicas publicadas, mas precisa ser acordada junto ao médico para evitar efeitos colaterais mais graves. O paciente deve comprar a “caneta” para a injeção.

Porém, ainda não há um produto com a exata dose a venda no Brasil, já que o medicamento é aprovado (leia mais abaixo) oficialmente para o tratamento da diabetes, com uma quantidade diferenciada. Em pesquisa feita pelo g1, quatro doses de até 1 mg foram encontradas por cerca de R$ 900 em novembro de 2021, valor a ser desembolsado mensalmente.

3. Para quem é recomendado?

Por enquanto, o uso offlabel é feito para pacientes obesos, com Índice de Massa Corporal acima de 30, e, como é previsto em bula, para tratar a diabetes. Uma mulher de 30 anos com uma altura de 1,65 metro e 85 quilos, por exemplo, já se enquadraria de acordo com o critério, mas seria necessária uma avaliação médica para observar qualquer impedimento ou, ainda, uma solução mais adequada.

Já em caso de sobrepeso, segundo Salles, o tratamento poderá ser feito se a pessoa já estiver com efeitos negativos na saúde, como apneia do sono, mudança da pressão arterial, entre outros, incluindo a própria diabetes.

4. Quais são os efeitos colaterais?

Segundo Renato Zilli, parte do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, uma das vantagens da semaglutida é o fato de não “mexer com o humor, não causar depressão e ansiedade”, como ocorre no caso das anfetaminas.

No entanto, a semaglutida pode causar efeitos colaterais no sistema gastrointestinal. O principal deles é a náusea. Há, ainda, de acordo com a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, chance de:

  • Diarreia
  • Vômito
  • Prisão de ventre
  • Dor abdominal
  • Dor de cabeça
  • Fadiga
  • Dispepsia (indigestão)
  • Tontura
  • Distensão abdominal
  • Eructação (arroto)
  • Hipoglicemia (baixo nível de açúcar no sangue) em pacientes com diabetes tipo 2
  • Flatulência (acúmulo de gases)
  • Gastroenterite (uma infecção intestinal)
  • Doença do refluxo gastresofágico (um tipo de distúrbio digestivo)

Salles aponta que a principal forma de reduzir o desenvolvimento de efeitos colaterais é a conversa e o planejamento junto ao médico. Ele diz que um plano com aplicação gradativa do produto deve ser criado com segurança e, muitas vezes, os pacientes têm comprado sem a prescrição de um especialista.

“Sempre bom ressaltar que é um medicamento para a diabetes. O uso offlabel precisa ser acordado entre médico e paciente. Ele precisa saber se o médico se sente seguro para fazer o tratamento, precisa-se discutir com o paciente se o benefício ou o risco do paciente valem a pena”, afirmou.

5. O que dizem os estudos?

Segundo os especialistas, o estudo mais importante foi publicado em março deste ano, na “The New England Journal of Medicine”, revista britânica. Os pesquisadores prescreveram 2,4 mg por semana para um grupo e, para o outro, o placebo. A partir de 4 semanas, os pacientes que estavam recebendo o tratamento começaram a emagrecer. A perda média foi de 15% do peso corporal ao final do ensaio.

“Este estudo é muito bonito, muito bem feito. Ele mostra uma perda de peso fantástica. É uma promessa para o tratamento da obesidade muito importante. É o principal medicamento que a gente pode ter nos próximos tempos”, disse Salles.

Veja na no infográfico abaixo como foi desenhado o estudo e seus principais resultados:

G1

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