Como a preservação do Rio Madeira é essencial para manutenção da bacia amazônica

Como a preservação do Rio Madeira é essencial para manutenção da bacia amazônica

O Rio Madeira abriga 40% de todas as espécies de peixes da bacia amazônica — são mais de 1,2 mil. Todos os rios de Rondônia, em algum momento, desaguam no Madeira e as modificações nos ambientes ao redor dos rios são as principais causas que levam ao risco de extinção dos organismos.

Um exemplo disso é a nova espécie Moenkhausia (Characiformes: Characidae), popularmente conhecida como lambari. Ela foi catalogada por pesquisadores de Rondônia, Paraíba e Mato Grosso do Sul, em estudo publicado pela revista Neotropical Ichthyology, da Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI), em março deste ano.

Recém descoberta, ela é considerada quase ameaçada devido à distribuição geográfica restrita e ao declínio contínuo da qualidade do habitat.

Moenkhausia cambacica, nova espécie descoberta em Rondônia, coletada por Manoela Maria Ferreira Marinho, Willian Massaharu Ohara e Fernando Cesar Paiva Dagosta. — Foto: Sociedade Brasileira de Ictiologia/Divulgação

Moenkhausia cambacica, nova espécie descoberta em Rondônia, coletada por Manoela Maria Ferreira Marinho, Willian Massaharu Ohara e Fernando Cesar Paiva Dagosta. — Foto: Sociedade Brasileira de Ictiologia/Divulgação

Segundo o pesquisador rondoniense, Willian Massaharu Ohara, que também assina o artigo publicado pela SBI, durante o período de coleta, a espécie Moenkhausia foi procurada pela equipe em vários riachos do sul de Rondônia e até no estado vizinho, Mato Grosso, mas só foi encontrada em dois rios de Vilhena (RO), sendo que um deles está rodeado por fazendas agropecuárias e o outro prejudicado por resíduos de lixo que caem no local devido a falta de saneamento. Esses fatores podem levar a espécie, em um futuro próximo, à extinção.

“A modificação do ambiente é um dos principais motivos que levam a extinção de uma espécie. Em Rondônia nos últimos 50 anos estão transformando a floresta em sistemas de produção. Estão transformando os riachos em lagoas, seja para implantação de usinas ou ocupação de gado próximo. Estudos mostram que as principais ameaças quase sempre são a substituição da floresta original por sistemas de produção, aí entra a pecuária, agricultura e até psicultura”, comenta o pesquisador.

Os especialistas em ictiologia garantem que a terra influencia o que está na água, o uso do solo mexe diretamente com os peixes. O desmatamento feito em áreas próximas aos rios, pode gerar erosão e grande poluição às águas.

Além disso, em alguns locais do estado, como próximo dos municípios de Ariquemes e Campo Novo de Rondônia, que sofreram com garimpos “a céu aberto” durante exploração de ouro e cassiterita, tiveram o sumiço de espécies de peixes, de acordo com os pesquisadores.

Mesmo assim, a natureza resiste. Rondônia é habitat para diferentes espécies em seus rios que cortam a Floresta Amazônica e o cerrado, contribuindo para diferentes grupos de peixes, como o peixe-faca, também catalogado em março deste ano pelo jornal acadêmico Systematics and Biodiversity. Ele pertence à mesma ordem de peixe que produz eletricidade.

Nova espécie de peixe-faca (Gymnotiformes: Hypopomidae), catalogado por Guilherme Moreira Dutra, Luiz Antônio Wanderley Peixoto, Luz Eneida Ochoa, Willian Massaharu Ohara, Carlos David de Santana, Naércio Aquino Menezes e Aléssio Datovo. — Foto: Systematics and Biodiversity/Divulgação

Nova espécie de peixe-faca (Gymnotiformes: Hypopomidae), catalogado por Guilherme Moreira Dutra, Luiz Antônio Wanderley Peixoto, Luz Eneida Ochoa, Willian Massaharu Ohara, Carlos David de Santana, Naércio Aquino Menezes e Aléssio Datovo. — Foto: Systematics and Biodiversity/Divulgação

“É um tipo de peixe elétrico, pertence à mesma ordem, mas esse não dá choque. E ele não é totalmente cego, enxerga, mas não muito bem. Por ter hábitos noturnos usa esses campos elétricos justamente para nadar bem. Quando esses campos batem em alguma estrutura e voltam para ele, o peixe consegue mapear o rio através desse campo elétrico”, comenta o pesquisador Willian Ohara, que também trabalhou na descrição dessa nova espécie.

A primeira captura desse tipo de peixe-faca foi em 2014, mas a catalogação só aconteceu em 2021, já que o processo de coleta até a publicação e descrição em revista científica demora, principalmente nesse caso onde foi feito o estudo de taxonomia integrativa, para comprovar que esse indivíduo é uma espécie nova.

As diferenças dessa para outras já catalogadas estão na coloração e ausência de um osso posterior.

“A gente usou várias tecnologias para catalogar essa espécie, uma delas é uma máquina que faz um escaneamento das partes duras do corpo, para fazer um mapeamento das estruturas e vimos quais ossos ele tem e quais não possui”, comenta Ohara.

Outra técnica foi o estudo molecular, onde foi possível procurar os “parentescos” da nova espécie.

Tanto o peixe-faca quanto o Moenkhausia foram encontrados no Rio Machado, que deságua no Rio Madeira. A bacia do Madeira ocupa uma extensão duas vezes maior a qualquer outra na região amazônica, cobrindo uma área de 1.380.000 km², distribuída em territórios do Brasil, da Bolívia e do Peru.

As primeiras corredeiras se localizam no rio Beni, próximas a Cochabamba, na Bolívia. Os seus maiores afluentes, todos localizados na margem direita, são os rios Jamari, Machado, Marmelos, Manicoré e Aripuanã.

“Ou seja, para preservar a bacia amazônica é importante preservar a bacia do madeira, preservar Rondônia”, afirma o pesquisador.

O Madeira secando

Rio Madeira durante período de estiagem em setembro de 2021 — Foto: André Oliveira/Rede Amazônica

Rio Madeira durante período de estiagem em setembro de 2021 — Foto: André Oliveira/Rede Amazônica

O Serviço Geológico do Brasil (CPRM) apontou que a seca do rio Madeira em 2021 pode ser uma das piores, caso ocorra um atraso no início da estação chuvosa em Porto Velho. Essa redução do nível do rio vai depender da evolução das chuvas até outubro.

Ainda conforme o CPRM, a previsão hidrológica de intensa seca do rio foi gerada considerando o coeficiente de recessão para vazões, a partir da análise do histórico da estação de Porto Velho.

O vídeo abaixo mostra a região de Cujubim Grande, no médio Madeira, na primeira semana de setembro. As imagens mostram largos bancos de areia com pequenas concentrações de água em parte do rio.

Há milhares de anos

Como a bacia do Madeira abriga uma das maiores diversidades de peixes do planeta, os fósseis também ajudam pesquisadores locais a conhecerem o cenário amazônico do passado. Exemplo disso é o fóssil de um mamífero marinho com mais de 45 mil anos encontrado em áreas de garimpo de Rondônia. Ele foi reconhecido como uma nova espécie de peixe-boi: o Trichechus hesperamazonicus.

Existiam, até então, três espécies de peixe-boi: Trichechus senegalensis (peixe-boi-africano), o Trichechus manatus (peixe-boi-marinho) e o Trichechus inunguis (peixe-boi-da-amazônia).

O trabalho, publicado na revista acadêmica Journal of Vertebrate Paleontology em janeiro de 2020, descreve que a nova espécie de peixe-boi existia na bacia amazônica, mais precisamente no Rio Madeira. A região atualmente não comporta mais peixes-bois, por ser um ambiente de corredeiras e águas rápidas, que não é propício para a espécie.

Os vestígios do peixe-boi foram encontrados na década de 1990 por garimpeiros que trabalhavam no distrito de Araras, nas proximidades de Nova Mamoré (RO).

Mario Alberto Cozzuol e Fernando Perini (veja no vídeo acima), pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também se interessaram pela descoberta. O primeiro é especialista em mamíferos fósseis aquáticos e o outro atua na área de descrição de mamíferos.

Durante os estudos, a equipe descobriu que os fósseis se tratavam de nova espécie – já extinta – de peixe-boi. O animal vivia no bioma amazônico brasileiro no período pleistoceno tardio.

O Brasil perdendo água

O Brasil perdeu 15,7% de superfície de água nos últimos 30 anos, o equivalente a 3,1 milhões de hectares de superfície hídrica, revela um levantamento do MapBiomas, uma iniciativa que reúne cientistas e ambientalistas para mapear o país.

O levantamento mostra que em 1991 a superfície hídrica do país era de 19 milhões de hectares. Em 2020, essa área foi reduzida para 16,6 milhões de hectares, uma redução equivalente a mais de uma vez e meia a superfície de água de toda região Nordeste em 2020.

As maiores reduções da superfície da água encontram-se próximos a fronteiras agrícolas, o que sugere que o aumento do consumo, construção de pequenas represas em fazendas, que provoca assoreamento e fragmentação da rede de drenagem e que vem junto com o desmatamento e aumento de temperatura, são fatores que podem explicar as da diminuição da superfície da água no Brasil.

]Fonte: https://noticiageral.com – com informações de G1

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