Cruz Vermelha pede que Brasil crie centro de referência para famílias de desaparecidos; país tem 80 mil casos por ano

Cruz Vermelha pede que Brasil crie centro de referência para famílias de desaparecidos; país tem 80 mil casos por ano

“Eu só queria meu filho. Até hoje é assim. Se eu pudesse gastar tudo que eu tenho, eu gastaria até a minha vida, para ter ele de volta”, diz Francisca Ribeiro, mãe de Hugo, que desapareceu em 2007 em Guarulhos, na Grande São Paulo, aos 10 anos de idade.

Para Francisca e para outros 26 familiares de pessoas desaparecidas no estado de São Paulo, nada pode ser mais valioso do que informações sobre o paradeiro de quem eles buscam. Foi com base nos depoimentos deles que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) desenvolveu um relatório sobre o desaparecimento de pessoas no Brasil, lançado nesta terça-feira (6).

O objetivo do documento é mapear as necessidades de familiares de pessoas desaparecidas e orientar os governos a melhorar a resposta dada ao enorme volume de desaparecimentos. Desde 2017, são cerca de 80 mil boletins de ocorrência do tipo registrados anualmente, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Dentre as principais recomendações do relatório para as autoridades estão:

  • estabelecer um mecanismo nacional para tratar o tema, com o objetivo principal de esclarecer o paradeiro da pessoa desaparecida;
  • criar centros de referência em todas as cidades onde for identificado um número significativo de famílias de pessoas desaparecidas;
  • instituir uma rede nacional de assistência jurídica para casos de desaparecimento, composta por representantes das Defensorias Públicas e dos Ministérios Públicos dos estados, da Defensoria Pública da União e do Ministério Público Federal;
  • realizar uma reforma legislativa para criar a Certidão de Ausência, documento que poderia ser usado para para pedidos administrativos de documentos, benefícios e políticas de reparação;
  • implementar uma rede nacional de atenção à saúde dos familiares de pessoas desaparecidas, que vivem consequências graves para saúde física e mental;

“Há muitas autoridades com papel relevante a cumprir, e há também várias pontes a construir entre elas”, afirma Larissa Leite, coordenadora do Programa para Pessoas Desaparecidas e suas Famílias do CICV no Brasil.

Ao final do relatório, a Cruz Vermelha se coloca à disposição “das autoridades brasileiras e de coletivos de familiares de pessoas desaparecidas para colaborar tecnicamente e prestar apoio a partir das experiências desenvolvidas no seu trabalho no Brasil e em outros países”.

Exemplares do documento já foram entregues às autoridades competentes e, agora, a entidade oferece apoio técnico.

“Quando uma instituição tem abertura e interesse em desenvolver ações que respondam às necessidades das famílias, nós apresentamos apoio técnico, com nossa equipe multidisciplinar, e auxiliamos no planejamento das ações”, diz Larissa.

Para Rita Palombo, coordenadora de Proteção da Delegação Regional do CICV, conectar as autoridades envolvidas e os familiares é essencial para melhorar o processo de busca por pessoas desaparecidas.

“Quanto mais essas peças puderem estar próximas, maiores as chances de localizar quem desapareceu e reduzir o sofrimento dos familiares durante a busca”, diz Palombo.

Descobrir em quais portas bater foi uma lição que Francisca Ribeiro demorou a aprender. Agora, ela espera que o relatório do CICV, do qual participou, ajude outros familiares de desaparecidos em suas buscas.

“Neste nosso relatório tem ali uma coisa tão magnífica, tão maravilhosa, que é a orientação. É muito rico em conhecimento para nós, famílias que temos um ente desaparecido. Se o governo tivesse feito isso lá atrás, em 2007, pode ter certeza eu seria hoje outra pessoa. Porque ninguém me orientava, e eu fui perdendo tudo”, conta.

Familiares de pessoas desaparecidas participam de reunião organizada pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) — Foto: Victor Moriyama/CICV

Familiares de pessoas desaparecidas participam de reunião organizada pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) — Foto: Victor Moriyama/CICV

Necessidade de saber

Sem orientação sobre como buscar seu filho, Francisca Ribeiro foi em busca de respostas sozinha. Neste processo, se viu obrigada a gastar suas economias, perdeu o emprego, vendeu pertences e foi vítima de golpistas que prometiam pistas do paradeiro de Hugo Ribeiro Santos Camargo em troca de dinheiro.

“Um deles disse que era um detetive e eu entreguei a ele R$ 3,5 mil, de cara. Para um outro, foram R$ 6 mil, tirados da poupança que eu tinha para quando o Hugo fosse pra faculdade. Eu paguei, mas essas pessoas se aproveitam de você. Quando eu lembro disso hoje, eu me sinto envergonhada, mas eu não tinha ninguém que me orientava a não pagar. Não tinha um órgão público me alertando, e tudo que eu queria era saber”, conta.

Familiares de pessoas desaparecidas se abraçam em reunião promovida pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) na Praça da Sé, em São Paulo. — Foto: Victor Moriyama/CICV

Familiares de pessoas desaparecidas se abraçam em reunião promovida pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) na Praça da Sé, em São Paulo. — Foto: Victor Moriyama/CICV

A busca desesperada por informações, descrita por Francisca, é comum entre familiares de desaparecidos. Com base em entrevistas e encontros, tanto presenciais quanto online, a Cruz Vermelha promoveu a chamada Avaliação das Necessidades dos Familiares (ANF), e concluiu que a necessidade de saber é a prioridade fundamental dos familiares de pessoas desaparecidas.

O relatório explica ainda que a necessidade de saber não envolve, necessariamente, o retorno da pessoa desaparecida, mas principalmente a disponibilidade e capacidade de as autoridades fazerem busca coerentes e fornecerem explicações sobre o que aconteceu com quem desapareceu.

Em mensagens escritas ao CICV, os familiares disseram que “a espera é muito pior do que a morte” e que querem encontrar seus entes queridos vivos, mas, “caso isso não seja mais possível, pelo menos tivemos um final”.

Situação dos familiares

Para além desta demanda por informações, o relatório destaca que a situação geral dos familiares é muito preocupante, e afirma que, em conjunto com a necessidade de saber o que aconteceu e qual o paradeiro do desaparecida, essas pessoas “passam a ter necessidades específicas quanto à sua saúde física e mental, quanto a aspectos jurídicos, econômicos, assim como quanto ao próprio reconhecimento do seu sofrimento”.

Encontro de familiares de pessoas desaparecidas realizado em São Paulo pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV)  — Foto: Victor Moriyama/CICV

Encontro de familiares de pessoas desaparecidas realizado em São Paulo pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) — Foto: Victor Moriyama/CICV

“A realidade com a qual o CICV se deparou é preocupante. Os familiares dedicados à busca têm dificuldades para encontrar informações confiáveis e correm riscos graves. Geralmente esgotam os seus recursos financeiros e emocionais, o que também debilita sua saúde física e mental”, afirma o documento.

“Além disso, [os familiares] acabam isolados, ressentindo-se da incompreensão e da falta de solidariedade. Em consequência, ficam indisponíveis para o trabalho, para relacionamentos e para outras atividades da vida diária, e com muitas dificuldades para acessar seus direitos”, completa o relatório.

Familiar de pessoa desaparecida escreve em um papel durante reunião do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em São Paulo — Foto: Victor Moriyama/CICV

Familiar de pessoa desaparecida escreve em um papel durante reunião do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em São Paulo — Foto: Victor Moriyama/CICV

Fonte: https://noticiageral.com – com informações de G1

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