É falso que União Europeia vai substituir vacinas contra Covid-19 por ivermectina?

É falso que União Europeia vai substituir vacinas contra Covid-19 por ivermectina?

Circula pelas redes sociais uma mensagem segundo a qual a ivermectina substituiria a aplicação de vacinas no combate à Covid-19 na União Europeia. Diante do suposto reconhecimento da eficácia da substância na prevenção e no tratamento da doença, segundo o texto, a substituição ocorreria ainda no mês de outubro no bloco. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa:

“UNIÃO EUROPEIA SUBSTITUIRÁ VACINAS POR IVERMECTINA
Boas notícias para quem não gosta da vacina covid-19: […] Todas as vacinas não serão mais aprovadas a partir de 20 de outubro de 2021. A União Europeia aprovou cinco terapias que estarão disponíveis em todos os hospitais dos Estados-Membros para o tratamento de covid-19.”
Trecho de texto que, até 18h do dia 15 de outubro de 2021, havia sido compartilhado por 200 usuários no Facebook

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A mensagem distorce um comunicado da Comissão Europeia, escrito em francês e publicado em junho, sobre novas terapias que estavam sendo desenvolvidas para o tratamento da Covid-19. O texto não menciona a ivermectina, nem que as terapias, que ainda estavam sendo estudadas, vão substituir a vacinação. Além disso, o órgão regulador do bloco não recomenda o uso do antiparasitário na prevenção ou no tratamento da Covid-19, restringindo seu uso apenas a testes clínicos.

Para dar uma aparência de credibilidade à informação, a mensagem das redes sociais traz o link de um comunicado de imprensa publicado em 29 de junho de 2021 no site da Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia. O texto encontra-se em francês, o que pode dificultar sua compreensão. No entanto, como é comum em conteúdos do bloco, existe também uma versão em português. O comunicado informava sobre cinco terapias em estudo que, até outubro, poderiam estar disponíveis para o tratamento da Covid-19 na União Europeia. Tratava-se do imunossupressor baricitinib, dos anticorpos monoclonais regdanivimab e sotrovimab, além de duas combinações – bamlanivimab e etesevimab, assim como casirivimab e imdevimab. Não há qualquer menção à ivermectina.

O comunicado reforçava que o desenvolvimento de terapias para o tratamento de doentes com Covid-19 ocorria em paralelo à estratégia de vacinação da União Europeia — ou seja, a ideia era complementá-la, e não substituí-la. O texto dizia ainda que o Sars-CoV-2 não deve desaparecer, então seria importante contar com tratamentos seguros e eficazes para reduzir o ônus da doença, mas ressaltava que a imunização é a melhor forma de pôr fim à pandemia.

Também não existe qualquer informação sobre a suposta substituição das vacinas pela ivermectina em veículos de imprensa ou no site da Comissão Europeia, que mantém uma página com dados sobre a imunização no bloco.

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA), que regula a utilização de fármacos na União Europeia, publicou em março uma nota em que não recomendava a ivermectina na prevenção e no tratamento da Covid-19. “Os medicamentos com ivermectina não estão autorizados para uso contra a Covid-19 na União Europeia e a EMA não recebeu nenhum pedido para esse uso”, disse o órgão. A orientação é de que, diante da falta de evidências de sua efetividade contra a doença, o antiparasitário seja utilizado apenas em estudos clínicos.

Essa informação também foi checada por Estadão Verifica, Aos Fatos e AFP.


“Atualmente, a ivermectina foi cientificamente reconhecida como uma droga eficaz na prevenção e tratamento de covid-19 por pesquisadores do Instituto Pasteur, França. Os resultados de seu estudo foram publicados na revista EMBO Molecular Medicine em 12 de julho de 2021.”
Trecho de texto que, até 18h do dia 15 de outubro de 2021, havia sido compartilhado por 200 usuários no FacebookFALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O estudo mencionado existe, mas foi realizado em hamsters, o que impossibilita que a ivermectina seja “cientificamente reconhecida” como eficaz contra a Covid-19 em humanos.

O artigo “Attenuation of clinical and immunological outcomes during SARS-CoV-2 infection by ivermectin” foi publicado em 12 de julho na revista EMBO Molecular Medicine e é assinado por nove pesquisadores ligados ao Instituto Pasteur, da França. O estudo concluiu que a ivermectina protegeu os hamsters infectados de desenvolverem sintomas clínicos durante a infecção pela doença. Por outro lado, não foi observado efeito sobre a replicação do vírus da Covid-19 no organismo dos animais.

Especialistas advertem que os efeitos observados em animais não são necessariamente os mesmos em seres humanos. Animais de laboratório são comumente utilizados em testes pré-clínicos, nos quais aspectos de segurança dos medicamentos são avaliados antes de sua aplicação em seres humanos. Se aprovado, o fármaco passa por mais três fases até ser considerado seguro e eficaz. Posteriormente, uma quarta fase segue monitorando os efeitos do produto após sua autorização para uso.

Até o momento, não há comprovação científica de que a ivermectina tenha efeitos em humanos contra a Covid-19. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é de que o uso da substância esteja restrito a ensaios clínicos, diante de resultados inconclusivos no combate ao coronavírus.

Essa informação também foi checada pelo Projeto Comprova.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌

Fonte:Lupa

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