É falso que vacina contra Covid-19 libera fibrina na corrente sanguínea?

É falso que vacina contra Covid-19 libera fibrina na corrente sanguínea?

Circula no WhatsApp um vídeo em que uma mulher afirma que as vacinas contra a Covid-19 causam problemas de saúde para o resto da vida. Isso porque, segundo ela, o imunizante libera um tipo de proteína, a fibrina, na corrente sanguínea, provocando a coagulação do sangue. Além disso, a mulher pede para ninguém vacinar crianças e adolescentes, porque eles têm uma “imunidade boa”. A protagonista não se identifica nem apresenta provas das suas declarações. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“(…) Através da microscopia, eu pude conferir o meu sangue no microscópio várias fibrinas. A vacina, a proteína ‘sparker’, ela libera na corrente sanguínea várias fibrinas causando coagulação do sangue, por isso que muita gente vem a óbito”

Conteúdo de vídeo que circula no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há evidências científicas de que as vacinas contra a Covid-19 causem coagulação sanguínea pela liberação de fibrina. Em nota enviada por e-mail, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que não há nenhuma evidência de que a vacina provoque a liberação de fibrinas no organismo. 

Além disso, de acordo com o chefe do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC, Aguinaldo R. Pinto, é pouco provável que a mulher que aparece no vídeo tenha visto fibrina no sangue em um microscópio, pois se trata de uma molécula de tamanho muito pequeno. “A não ser em microscópios eletrônicos, o que certamente essa pessoa do vídeo não tem acesso”, pontua o especialista.

Especificamente no caso da fórmula das vacinas da Pfizer/BioNTech ou da Moderna, que usam a tecnologia de RNA mensageiro, é injetado no organismo o código genético do vírus – um conjunto de instruções para que as células do corpo produzam a proteína Spike, molécula do novo coronavírus que permite a invasão das células. Só que essa produção é apenas momentânea, ou seja, a pessoa não irá produzir para sempre essa proteína, como já indicou outra checagem da Lupa.

“O que é grave mesmo é a Covid-19. Problemas graves podem ser causados pela proteína Spike que está no vírus que causa a Covid-19, e não na vacina. Mesmo aquelas em que há produção da proteína, ela não fica pra sempre no organismo e não causa os mesmos problemas que o próprio vírus”, afirma a professora do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Ana Paula Herrmann.

Herrmann também explicou que a fibrina é uma proteína formada a partir de uma proteína precursora (o fibrinogênio), o que é ativado por uma reação em cadeia (a cascata de coagulação) que ocorre fisiologicamente para evitar sangramentos quando existe alguma lesão. “Ou seja, é algo importante para a vida, inclusive”, diz.

A Anvisa destacou que a coagulação do sangue é um processo biológico muito importante para a saúde e segurança do indivíduo. E que, por sua vez, as fibrinas são componentes naturais do organismo. “É considerada uma parte essencial da homeostasia, um termo utilizado para resumir o conjunto completo de processos responsáveis pela interrupção de um sangramento”, afirma trecho da nota.

A agência explicitou ainda que na gravação os termos foram usados fora de contexto para distorcer informações sobre as vacinas. “Sem os mecanismos envolvidos na cascata de coagulação, os seres vivos com sangue não teriam os sangramentos ou hemorragias interrompidos. É o que acontece quando furamos o dedo ou a agulha atinge um pequeno vaso. Isso não significa que a vacina cause esse tipo de reação em todo o corpo. Assim, parte do mecanismo natural e bem conhecido, uma informação verdadeira em processos hemorrágicos, tem sido utilizada para desvirtuar a ação da vacina”.

“Agora você pode não ter efeito colateral, mas daqui um ano, dois anos, daqui três anos (…)”

INSUSTENTÁVEL

A informação analisada pela Lupa é insustentável. Não há nenhum estudo científico que aponte para a ocorrência de problemas no futuro em quem foi imunizado. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os efeitos colaterais relatados das vacinas contra a Covid-19 têm sido, em sua maioria, de leves a moderados e não duram mais do que alguns dias. Como ocorre com qualquer imunizante, pode haver efeitos colaterais, mas eles desaparecem dentro de alguns dias por conta própria, segundo a instituição. 

O chefe do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC, Aguinaldo R. Pinto, pontua que ainda não é possível afirmar se haverá riscos de longo prazo. Somente daqui a alguns anos poderá ser constatada ou não essa alegação. Isso vale para qualquer vacina, ou seja, não é exclusivo daquelas contra a Covid-19. Por hora, o histórico do uso de imunizantes indica que eles não têm causado efeitos adversos no longo prazo.

Segundo a OMS, os efeitos colaterais típicos incluem dor no local da injeção, febre, fadiga, dor de cabeça, dor muscular, calafrios e diarréia. Esses efeitos ocorrem nos primeiros dias após a aplicação da vacina.


“Não vacinem as crianças, não vacinem os adolescentes, eles têm imunidade boa, a imunidade deles é alta (…)”

Conteúdo de vídeo que circula no WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O epidemiologista e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Guilherme Werneck ressalta que crianças têm um sistema imunológico que está em desenvolvimento. Eventualmente, ele pode ser melhor do que o de uma pessoa idosa. Contudo, isso não garante que estejam protegidos da infecção contra a Covid-19. 

Ana Paula Herrmann, da UFRGS, também afirma que a alegação do vídeo não procede. “(As crianças) são menos suscetíveis às formas graves de Covid-19, em comparação com pessoas mais velhas, mas isso não quer dizer que não possam, inclusive, morrer. Apenas é menos frequente”, diz. “Crianças são mais, e não menos, suscetíveis que adultos para outras condições. Inclusive nos primeiros anos de vida o sistema imunológico está em desenvolvimento, e o indivíduo está em um processo dinâmico de adquirir memória imunológica.”

No dia 9 de novembro, a Pfizer apresentou dados à Anvisa para avaliar o uso de vacinas contra a Covid-19 em crianças de 5 a 11 anos. O órgão terá até 30 dias para analisar o pedido de uso da vacina em crianças, prazo contado a partir da solicitação formal da farmacêutica. No momento, o imunizante da Pfizer pode ser aplicado no grupo entre 12 a 18 anos.

A agência reguladora norte-americana Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, aprovou o uso emergencial da vacina da Pfizer contra a Covid-19 em crianças no final de outubro. Segundo reportagem da Agência Brasil, dados do CDC mostram que cada milhão de doses da vacina administrada pode evitar entre 80 e 226 internações de crianças de 5 a 11 anos.

No Brasil, o Ministério da Saúde planeja vacinar as crianças com essa faixa etária em 2022, caso haja aprovação da Anvisa. A pasta se antecipa e negocia com a Pfizer para adquirir 40 milhões de doses. Contudo, a entrega depende da autorização da agência.  

Essa informação também foi checada por Fato ou Fake e Boatos.org.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa

Lupa

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