É falso que vacinas de RNA mensageiro levam à produção de proteínas tóxicas em crianças?

É falso que vacinas de RNA mensageiro levam à produção de proteínas tóxicas em crianças?

Circula pelo WhatsApp um vídeo em que o virologista norte-americano Robert Malone afirma que as vacinas de RNA mensageiro contra a Covid-19, como as da Pfizer, produzem substâncias tóxicas no corpo de crianças, podendo levar a “danos permanentes” nos sistemas imunológico, nervoso e reprodutivo. Malone, que se diz criador das vacinas de RNA mensageiro, argumenta ainda que seriam necessários ao menos cinco anos de testes para conhecer todos os riscos associados às vacinas. Por WhatsApp, leitores da Lupa sugeriram que esse conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação​:

“Esse gene [das vacinas de RNA mensageiro] força o corpo do seu filho a produzir proteínas Spike tóxicas. Essas proteínas frequentemente causam danos permanentes em órgãos vitais das crianças. Esses órgãos incluem seu cérebro e sistema nervoso; seu coração e veias sanguíneas, incluindo coágulos de sangue; seu sistema reprodutivo. E o mais importante: essa vacina pode provocar mudanças fundamentais em seu sistema imunológico.”
Trecho de vídeo que circula em grupos de WhatsApp 

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. A produção da proteína Spike faz parte do mecanismo de ação das vacinas de RNA mensageiro contra a Covid-19. No entanto, não há evidências de que essa partícula seja tóxica. Além disso, também não há registros de supostos danos permanentes provocados pela imunização aos sistemas imunológico, nervoso e reprodutivo, como citado por Malone.

“As vacinas da Pfizer e da Moderna têm registrado alguns eventos raros — raríssimos, eu diria —, potencialmente graves, mas nada relacionado à toxicidade da proteína Spike do Sars-CoV-2”, explica o infectologista Alexandre Naime Barbosa, chefe da Infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e da Associação Médica Brasileira (AMB). Ele reforça que nada nesse sentido foi observado nos estudos de desenvolvimento do imunizante, nem ao longo de um ano de sua aplicação em larga escala.

A vacina da Pfizer é composta de pedaços microscópicos de gordura que contêm um RNA mensageiro, ou mRNA. Esse pequeno fragmento de material genético possui as instruções para que células do corpo produzam a chamada proteína Spike, que estimula o sistema imunológico a produzir defesas contra o vírus. “É como se o indivíduo tivesse uma falsa Covid, porque você produz uma parte do vírus em alta quantidade e aí as células do sistema imune reconhecem isso como um ataque, fabricando anticorpos”, explica Barbosa. A proteína Spike se desintegra em pouco tempo, e não interage, em momento algum, com o núcleo das células — e, portanto, não tem capacidade de alterar o material genético de células humanas.

Segundo a bula da vacina da Pfizer, casos “muito raros” de miocardite e pericardite, que são inflamações relacionadas ao coração, foram relatados após uso do imunizante, especialmente entre homens mais jovens, após a segunda dose e em até 14 dias após a aplicação. Entretanto, o documento ressalta que geralmente são casos leves e que os indivíduos tendem a se recuperar em um curto período de tempo após tratamento padrão e repouso — dessa forma, são efeitos reversíveis, ao contrário do afirmado por Malone no vídeo. Os casos são consideravelmente mais raros e tendem a ser consideravelmente menos severos do que os causados pela própria Covid-19.

Em junho, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) reconheceu a existência de uma “ligação provável” de casos de miocardite e pericardite entre jovens de até 30 anos que receberam a segunda dose de vacinas — especialmente as que usam a plataforma de RNA mensageiro, como a da Pfizer. No entanto, o órgão ressaltou que esses casos são geralmente leves e extremamente raros. Além disso, reforçou que essas consequências são muito mais comuns ao se contrair a Covid-19, e que os danos ao coração causados com a infecção pelo Sars-CoV-2 podem ser mais severos.

Nesta quinta-feira (16), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a vacina da Pfizer para uso em crianças de 5 a 11 anos. Após análise técnica, a equipe do órgão avaliou que o imunizante é seguro e eficaz para esse público.


“Não existe benefício para seus filhos ou sua família para estarem vacinando seus filhos diante dos pequenos riscos do vírus”
Trecho de vídeo que circula em grupos de WhatsAppFALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Em 2021, pelo menos 1.397 crianças e adolescentes de entre 0 e 19 anos morreram de Covid-19, segundo o Boletim Especial Epidemiológico 91, de 27 de novembro. No ano passado, foram outras 1.161 mortes, segundo o BE 42 — que não inclui os dados das últimas três semanas de 2020. 33.743 pessoas dessa faixa etária foram hospitalizadas nesses dois anos.

“É proporcionalmente pouco [cerca de 0,4% do total] quando você compara com adultos, mas nenhuma doença imunoprevenível — sarampo, caxumba, rubéola, poliomielite — matou tantas crianças em um intervalo tão curto de tempo”, avalia o infectologista Alexandre Naime Barbosa. Além disso, o médico reforça que a imunização dessa faixa etária pode contribuir para reduzir as taxas de transmissão da doença, contribuindo para o fim da pandemia.


“Essa nova tecnologia não foi testada de maneira adequada. Precisamos de, pelo menos, cinco anos de testes e pesquisas antes de realmente compreendermos os riscos associados a essa nova tecnologia. Os danos e riscos de novos fármacos frequentemente são revelados muitos anos depois.”
Trecho de vídeo que circula em grupos de WhatsApp

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Mesmo que em um prazo mais curto que o comum, as vacinas em aplicação no país já cumpriram todas as etapas de avaliação exigidas para que pudessem ser utilizadas em seres humanos. 

De fato, foi a primeira vez na história que o desenvolvimento de uma vacina ocorreu em um intervalo de menos de um ano. Em média, esse processo pode levar até uma década. No entanto, grande parte desse tempo é empregada na busca de financiamento para a pesquisa clínica, que tem um custo elevado, e no recrutamento de voluntários dispostos a testar o produto, como explicou a professora do Departamento de Farmacologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Ana Paula Herrmann em outra checagem publicada pela Lupa. “Não é como se o paciente ficasse dez anos sendo observado. A maior parte desse tempo são buracos em branco.”

Diante do cenário de emergência da pandemia, com financiamento e voluntários à disposição, o desenvolvimento dos imunizantes foi acelerado. “A tecnologia também estava disponível. A gente já tinha uma base muito boa para várias das plataformas de vacinas que são utilizadas hoje. Todo esse tempo foi poupado. Mas em nenhum momento essa redução do prazo exigiu que se abrisse mão da segurança e da eficácia”, reforçou Herrmann.

A experiência com a aplicação de vacinas na população há décadas afasta a probabilidade do surgimento de supostos efeitos adversos de longo prazo, constantemente alardeados por grupos antivacina. “É muito pouco provável do ponto de vista da plausibilidade biológica. Em geral, os efeitos adversos ocorrem nas semanas seguintes à administração. O que importa nesse caso é a comparação de risco-benefício. E no caso da vacina da Covid, essa comparação está claramente pendendo para o lado do benefício, e não para o lado do risco”, ponderou a professora.


“[…] tecnologia mRNA de vacina que eu criei”
Trecho de vídeo que circula em grupos de WhatsAppEXAGERADO

Malone teve uma importante contribuição no início do desenvolvimento da tecnologia de RNA mensageiro, mas não é seu único criador. De acordo com uma reportagem publicada pela revista Nature, o virologista, em 1987, realizou experimentos misturando fios de RNA mensageiro com gotículas de gordura, criando uma espécie de “ensopado molecular” que possibilitou a tecnologia usada na criação das vacinas contra a Covid-19 produzidas pela Pfizer e Moderna. 

Entretanto, foram necessários anos de testes e aperfeiçoamentos, realizados por inúmeros pesquisadores, até que a tecnologia se tornasse viável para utilização. “As vacinas de RNA mensageiro de hoje têm inovações que foram inventadas anos depois do período de Malone no laboratório, incluindo RNA quimicamente modificado e diferentes tipos de bolhas de gordura para transportá-lo para dentro das células”, explica a Nature.

Essa informação também foi verificada por Boatos.org, Aos Fatos e Fato ou Fake.

Esta‌ ‌verificação ‌foi sugerida por leitores através do WhatsApp da Lupa.

LUPA

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