Ouro nas Paralimpíadas aos 21 anos, Gabriel Bandeira só descobriu déficit intelectual aos 19: ‘Muitas dificuldades’

Ouro nas Paralimpíadas aos 21 anos, Gabriel Bandeira só descobriu déficit intelectual aos 19: ‘Muitas dificuldades’

Primeiro medalhista de ouro do Brasil nas Paralimpíadas de Tóquio ao vencer os 100m borboleta da classe S14 (para deficientes intelectuais) nesta quarta-feira (25), com direito a recorde paralímpico da prova, o nadador Gabriel Bandeira, de 21 anos, descobriu que tinha déficit intelectual só aos 19. A informação foi confirmada pela avó dele, Carmen Miranda, a quem o jovem de Indaiatuba (SP) agradeceu nominalmente logo após o pódio.

“Não tem com explicar. É um filme da vida que passa na cabeça da gente. Tantas coisas que foram acontecendo ao longo da estrada, muitas dificuldades. A gente não sabia que ele tinha déficit intelectual até os 19 anos, quando fizemos os testes. Eu criei ele em um determinado momento da vida e optei por me aposentar do trabalho para poder acompanhá-lo”, disse Carmen.

Gabriel, cujo apelido é Bill, tem deficiência intelectual e déficit de atenção, conforme explicou seu técnico, Alexandre Vieira. “Para ser elegível para classe S14 precisa ter um diagnóstico de deficiência intelectual. Muita gente comete o erro de falar que o atleta aqui tem TDAH [Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade] ou hiperatividade, e isso não é elegível para o sistema. O que é elegível para o sistema é ter uma deficiência intelectual, e através das avaliações ele ter um QI abaixo de 75. É um teste feito por uma neuropsicóloga”.

Segundo Carmen, as principais dificuldades encontradas por Gabriel aconteceram na escola. “Foi a experiência mais traumática que tivemos. Ele tinha dificuldade de memorização. Só que a gente insistiu, e ele concluiu o Ensino Médio. Também combinamos que ele vai fazer uma faculdade ou qualquer outra coisa que preferir, mas que vai continuar estudando. É importante para a vida dele”, relatou.

Orgulho

De Indaiatuba, Carmen viu a conquista do neto e se emocionou com o que chamou de “coroação de tudo que trabalhamos juntos”. Ela ajudou a criar o neto, e decidiu se aposentar para acompanhar de perto os passos do nadador. Atualmente, moram juntos, ao lado da mãe dele, em Uberlândia (MG), onde o novo campeão paralímpico treina no Praia Clube.

Gabriel Bandeira, de Indaiatuba, levou o Ouro nas Paralimpíadas — Foto: Miriam Jeske/CPB

Gabriel Bandeira, de Indaiatuba, levou o Ouro nas Paralimpíadas — Foto: Miriam Jeske/CPB

Carmen escolheu se aposentar há três anos, quando tinha 54, para se dedicar exclusivamente a Gabriel. “Meus amigos de trabalho, quando optei por parar, diziam que ainda estava muito cedo para isso. Hoje já me ligaram falando que foi a melhor decisão que tomei”, afirmou. Ela disse ainda que nunca teve dúvida e se orgulha da relação que construiu com o nadador. A recompensa veio com a citação do neto a ela após o ouro em Tóquio.

“Eu acho lindo a parceria que temos. É simplesmente a coroação daquilo tudo que eu acreditava que seria possível para ele. Trabalhamos juntos. Todo início de ano eu perguntava se ele gostaria de continuar nadando, ele respondia que sim, e eu falava: ‘então vamos’. Agora é a coroação”, completou a avó, que revelou um pacto que fez com o neto.

“Temos um acordo de que, além de Tóquio, ele tem de ir para mais quatro Paralimpíadas, que é o que eu acredito que consigo acompanhá-lo”, contou.

Gabriel Bandeira e a avó, dona Carmen — Foto: Arquivo pessoal

Gabriel Bandeira e a avó, dona Carmen — Foto: Arquivo pessoal

A natação

A natação entrou na vida de Gabriel quando ele tinha 10 anos. Segundo a avó, o garoto sempre foi um prodígio nas piscinas. “A cada vez que eu ia buscá-lo na aula, a professora falava que na próxima iria mudá-lo para uma turma mais avançada. Com 10 meses de aulas, ela encaminhou o Gabriel para a equipe da prefeitura para fazer o teste e competir. Em menos de um ano ele já estava competindo. Eu falo que ele aprendeu a competir antes de aprender a nadar”, contou Carmen.

A mesma ascensão meteórica aconteceu na natação paralímpica. Gabriel estreou em torneios paralímpicos em 2020. A primeira disputa internacional foi neste ano e, agora, ele já é campeão do maior evento do mundo.

“Em fevereiro do ano passado, teve um torneio em Brasília. Ele quebrou quatro recordes, com seis ouros em seis provas. Já em Portugal, quando voltou a ser possível competir devido à pandemia, ele foi para confirmar o índice na S14 para Tóquio e fez seis recordes das Américas e seis ouros em seis provas “, conta, toda orgulhosa, dona Carmen.

E vem mais?

Gabriel está inscrito em mais quatro provas individuais em Tóquio, com chance real de medalha em todas: 200m livre S14, 100m costas S14, 100m peito SB14 e 200m medley SM14. Ele disputa ainda o revezamento misto 4x200m livre da classe S14. “Como o próprio Gabriel disse, é só o começo. Estamos na torcida por mais conquistas” completou dona Carmen.

Gabriel Bandeira foi um dos destaques do primeiro dia — Foto:  Alê Cabral/CPB

Gabriel Bandeira foi um dos destaques do primeiro dia — Foto: Alê Cabral/CPB

Fonte: https://noticiageral.com – com informações de 

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