Patente da Moderna de 2017 não comprova que vírus foi criado em laboratório

Patente da Moderna de 2017 não comprova que vírus foi criado em laboratório

Circula nas redes sociais que evidências “bioquímicas e estatísticas” supostamente confirmam que a Moderna, farmacêutica que desenvolveu uma vacina de mRNA contra a infecção pelo novo coronavírus, teria criado “o Covid-19”. Essa informação foi publicada pelo site Tribuna Nacional, que traduziu um conteúdo em inglês do site The Exposè. Esse texto cita um artigo no qual cientistas da Índia, Suíça, Itália e Estados Unidos teriam descoberto que o novo coronavírus contém um pequeno pedaço de DNA que corresponde a uma sequência patenteada pela Moderna em 2017, ou seja, antes da pandemia da Covid-19. Isso seria uma “prova” de que o laboratório criou o SARS-CoV-2. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“URGENTE: Evidências bioquímicas e estatísticas oficiais % confirmam que a Moderna criou o Covid-19

Surgiram evidências que provam, sem sombra de dúvida, que a gigante farmacêutica Moderna, empresa que ganhou bilhões com a venda de uma injeção experimental de Covid-19, realmente criou o vírus Covid-19″
Título de conteúdo publicado no site Tribuna Nacional que, até as 11h30 do dia 14 de abril de 2022, tinha 51 compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. O artigo citado não comprova que o novo coronavírus foi criado em laboratório pela farmacêutica norte-americana Moderna. Na verdade, a pesquisa, publicada originalmente na revista Frontiers in Virology  (Fronteiras em Virologia, em tradução livre), apenas mostra que um gene sintético patenteado pela Moderna em 2017 para pesquisas sobre câncer tem um código correspondente ao novo coronavírus. Esse fato, contudo, não é uma evidência de que o SARS-CoV-2 tenha sido criado artificialmente. Além disso, a sequência patenteada pela empresa (11652) também pode ser encontrada em outros organismos.  

Para o estudo, chamado “MSH3 Homology and Potential Recombination Link to SARS-CoV-2 Furin Cleavage Site”, sete cientistas se debruçaram no banco de dados conhecido como BLAST, uma ferramenta online para buscas de sequências biológicas primárias. Ao pesquisar sobre um código específico encontrado na proteína spike do novo coronavírus, eles identificaram uma sequência de 19 nucleotídeos (subunidade que forma o DNA e o RNA) que, segundo os autores, tem correspondência “100% compatível” com uma sequência patenteada pela Moderna em 2017 sobre polinucleotídeos modificados relacionados à oncologia — essa patente recebeu o número de identificação 11652. A partir disso, os pesquisadores chegaram à hipótese de que o novo coronavírus poderia ter sido projetado em laboratório.

Os próprios autores, no entanto, escreveram que essa correspondência “pode ​​ocorrer aleatoriamente” e que “outras possibilidades devem ser consideradas”. Segundo eles, essa correlação não é usual e requer mais pesquisas. Em nenhum momento eles atestam que o fato de as sequências terem correspondência seria uma prova absoluta de que o SARS-CoV-2 foi criado em laboratório. 

Segundo o Health Feedback, uma rede mundial de cientistas que combate desinformação sobre saúde, a sequência citada no artigo não é única e pode ser encontrada em outros seres vivos naturalmente.

Vários cientistas que avaliaram o artigo contestaram essa hipótese. Pelas redes sociais, o cientista italiano da Universidade de Trieste Marco Gerdol, especialista em imunologia, afirmou que é “claramente apenas uma coincidência”. Ao fazer a mesma consulta ao banco de dados BLAST, ele identificou que a sequência de genes patenteada pela Moderna pode ser encontrada em outros organismos, como o do pássaro andorinhão-peregrino.

Vale pontuar que o artigo foi revisado apenas por uma pessoa, o que não é recomendado. No meio científico, há o entendimento de que a revisão por pares — não apenas uma pessoa — é um dos pilares mais importantes para validação de um estudo. 

Origens do novo coronavírus

Embora ainda não exista uma resposta definitiva, as pesquisas mais recentes indicam que a origem do coronavírus é natural e que ele não foi projetado artificialmente em um laboratório. Em fevereiro deste ano, um artigo publicado pela revista Nature elencou três estudos de 2022 cujas conclusões convergem na hipótese de que o SARS-CoV-2 “saltou” de animais para os seres humanos em um mercado de frutos do mar em Wuhan, na China.

Ainda que essas três pesquisas recentes não tenham sido revisadas por pares, estudos anteriores, como os publicados pela New England School of Medicine e Nature, já indicavam que a origem da pandemia era esse mesmo mercado de frutos do mar. Segundo as pesquisas, o agrupamento geográfico dos primeiros casos conhecidos de Covid-19, além da proximidade de amostras ambientais positivas para fornecedores de animais vivos, sugerem que o mercado chamado Huanan, na cidade chinesa, foi o ponto de partida da pandemia, quando houve contaminação de humanos por animais. 

Procurada pela Lupa, a Moderna não respondeu até a publicação desta checagem.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌

Lupa

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.