Sócios italianos não pediram explicações à Fiat sobre demissão do jogador de vôlei Maurício Souza?

Sócios italianos não pediram explicações à Fiat sobre demissão do jogador de vôlei Maurício Souza?

Circula nas redes sociais que sócios italianos da Fiat, fabricante de veículos, teriam pedido explicações à divisão da empresa no Brasil sobre o posicionamento da marca diante da demissão do jogador de vôlei Maurício Souza, após uma declaração homofóbica. De acordo com o post, a Fiat Brasil, uma das patrocinadoras do time no qual Souza atuava como central, o Minas Tênis Clube, já teria perdido mais de “100 milhões em vendas” depois que divulgou um comunicado, em 26 de outubro, repudiando a atitude do jogador. Isso teria chamado a atenção dos “sócios de todo o planeta”. 

O post ainda sugere que os “sócios majoritários’ da fabricante teriam afirmado que “a Fiat não tem que se meter em assuntos que não lhe dizem respeito” e que não teria “o direito de punir ou exigir punições em âmbito externo, ainda mais sendo de opiniões”. Por meio do ​projeto de verificação de notícias​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​:

“SÓCIOS ITALIANOS PEDEM EXPLICAÇÕES A FIAT DO BRASIL.

Depois da lambança feita pela Fiat Brasil em obrigar um clube esportivo a demitir um de seus jogadores (Maurício Souza) por expressar suas opiniões, milhares de clientes decidiram não mais consumir os produtos da montadora Italiana, a merda foi tão grande que a FIAT BRASIL já perdeu mais de 100 milhões em vendas, isso chamou a atenção dos sócios de todo o planeta, a lacração pode custar a cabeça dos representantes em terras tupiniquins, ficou tão feio para a FIAT que até os majoritários se manifestaram em repúdio ao fato ocorrido (…)”

Legenda de post compartilhado no Facebook que, até as 10h20 do dia 3 de novembro de 2021, tinha 2,6 mil compartilhamentos

INSUSTENTÁVEL

A informação analisada pela Lupa é insustentável. Não há dados que comprovem ter havido uma “queda de 100 milhões” nas vendas da montadora a partir de 26 de outubro, data do comunicado no qual a empresa repudiou declarações homofóbicas do jogador Maurício Souza. Em outubro de 2021, a Fiat foi a marca que mais vendeu carros no Brasil. Segundo levantamento do site Car.Blog, foram comercializadas pouco mais de 29 mil unidades no país.

Embora nos dois primeiros dias de novembro a marca tenha caído para o terceiro lugar no ranking dos mais vendidos, a retração das negociações de veículos nesse período em relação ao mês passado foi geral, ou seja, não afetou apenas os modelos da Fiat. Enquanto nos dois primeiros dias úteis do mês atual foi vendido um total de 9.423 unidades em todo o país, nos dois primeiros dias úteis de outubro o total de vendas foi de 13.114 unidades. O período é muito curto para saber se a queda no número de vendas da Fiat deveu-se ao posicionamento da marca ou, por exemplo, ao feriado de Finados. Não existem dados ou pesquisas que indiquem os motivos de compra de cada consumidor.

Além disso, o valor de mercado da Stellantis, conglomerado automotivo que detém a marca Fiat, aumentou em outubro. No dia 1º do mês passado, as ações da multinacional à qual a Fiat pertence estavam sendo negociadas a US$ 19. Um mês depois, em 1º de novembro, os títulos foram negociados a US$ 20,20, ou seja, mais de um dólar mais caros. Em um mês, a multinacional valorizou 6,5% na Bolsa de Valores de Nova York. Isso significa que o grupo como um todo não perdeu dinheiro, como sugere o post, e sim ficou mais valorizado entre o começo e o fim do mês passado.

Sites bolsonaristas, como o Jornal da Cidade Online e o Terra Brasil Notícias, também publicaram conteúdos enganosos sobre uma suposta perda de clientes da montadora. Em ambas as páginas, foi usado o título “Fiat perde milhões de clientes após atacar Mauricio Souza” para textos que não comprovam essa afirmação. Esses sites apenas informaram que o atleta ganhou 1,6 milhão de seguidores em 48 horas e que, como consequência, a Fiat teria perdido 1,6 milhão de clientes. Não é possível saber se esses seguidores já têm carros da marca Fiat ou mesmo se um dia comprarão ou não veículos dessa montadora.


“(…) – A FIAT não tem que se meter em assuntos que não lhe diz respeito, somos uma multinacional que produzimos em todo mundo, não temos o direito de punir ou exigir punições em âmbito externo, ainda mais sendo de opiniões – disse um dos sócios em Turim na Itália.

A estimativa é que a FIAT peça desculpas formais ao jogador Maurício Souza nos próximos dias…
Quem lacra, não lucra !!”
Legenda de post compartilhado no Facebook que, até as 10h20 do dia 3 de novembro de 2021, tinha 2,6 mil compartilhamentos

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Não há qualquer registro público de que algum sócio da Fiat tenha feito declaração similar. A marca pertence à Stellantis, multinacional formada em janeiro de 2021 a partir da junção dos grupos FCA (Fiat Chrysler Automobiles) e PSA (Peugeot – Citroën). Esse conglomerado tem capital aberto e os dez principais acionistas não são pessoas e, sim, fundos de investimento (união de vários investidores). O fundo Government Pension Fund Global, por exemplo, atualmente o principal acionista da montadora (0,88%), pertence ao governo norueguês e os seus representantes não fizeram nenhuma declaração sobre a Fiat Brasil. 

Nas redes sociais da Stellantis (Twitter, Facebook, LinkedIn e YouTube) o assunto não foi mencionado. No site italiano da Fiat ou mesmo na página internacional da fabricante, não há qualquer menção ao caso. Nas redes sociais da Fiat Itália (Instagram, Twitter e Facebook) e da Fiat Internacional (Instagram, Twitter e Facebook) também não existem comentários ou comunicado oficial sobre a postura da Fiat Brasil. 

Fora do país, alguns portais, como o Yahoo! News, apenas noticiaram o caso, mencionando que o jogador foi cortado do time Minas Tênis Clube em razão de declaração homofóbica acerca da bissexualidade do filho do Superman. Essa reportagem também afirma que o pedido de desculpas do jogador, feito após solicitação das patrocinadoras do time dele, a Fiat e a Gerdau, foi “forçado e indiferente”. Em nenhum momento o site cita uma suposta repercussão negativa nas vendas da Fiat.

Procurada pela Lupa, a assessoria de imprensa da Stellantis informou, em resposta sucinta, que as informações da postagem não procedem.  

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌

Fonte: Lupa

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